CHORO - DO QUINTAL AO MUNICIPAL - Henrique Cazes

R$ 52,99

Disponibilidade: Indisponível

Código: EMP61059

Editora: Empório do Livro

Idioma: Português

Autor/Artista: Henrique Cazes

Formato: Livro / 224 páginas

UPC: 9788573261059

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A trajetória do choro, de 1845 até hoje, narrada com profundo conhecimento.

Editora 34

Prefácio para o livro Choro - Do Quintal ao Municipal, de Henrique Cazes (publicado pela Editora 34, em 1998)

Hermano Vianna

Não é preciso ser profeta para afirmar que este livro se tornará, imediatamente, uma obra de referência indispensável para estudiosos e amantes do choro e da música brasileira em geral. Primeiro pelo seu caráter enciclopédico, ou melhor, de quase dicionário biográfico (e ainda melhor: quase romanceado) dos grandes chorões do Brasil. Faz tempo que um trabalho como esse era esperado e necessário. As obras existentes estão em sua maior parte esgotadas e não abordam a evolução recente do choro no Brasil e no mundo. Um leitor interessado na história desse gênero musical teria que freqüentar dezenas de bibliotecas e sebos para, juntando pedaços de diversos livros para formar um panorama bastante incompleto daquilo que aconteceu e tem acontecido em torno das rodas de choro. Henrique Cazes facilita nossa vida. Mas seu trabalho não é apenas de um cuidadoso compilador. Muitas das histórias aqui contadas e muitos dados biográficos aqui encontrados são revelados para o público pela primeira
vez. As virtudes deste trabalho não terminam por aí. Um dos maiores méritos de Choro - do Quintal ao Municipal é o de ter sido escrito por um músico extremamente envolvido com os novos rumos que esse gênero musical tomou recentemente (e que há de tomar no futuro), além de ter tido o privilégio de conviver, desde sua adolescência, como alguns dos maiores chorões deste século. Este livro deve ser também degustado como um depoimento pessoal sobre toda essa história e todas essas vidas musicais. Para Henrique Cazes não seria interessante fingir ser um observador imparcial do choro (até porque – já estamos cansados de saber – não há, em nenhuma ocasião, observadores imparciais). Grande parte da riqueza do seu relato vem de sua coragem de ter opiniões, algumas delas bastante polêmicas, e de propor uma nova maneira de olhar para aquilo que já era conhecido, o olhar de um chorão contemporâneo. Portanto, não é também preciso ser um profundo conhecedor do choro para perceber que este livro propõe uma espécie de reviravolta (diria revolucão, se tal termo não pertubasse o tom de modéstia adequadamente zen com o qual Henrique Cazes trata os seus importantes achados) na narrativa tradicional – e tradicionalizante - de sua história. Quase como quem não quer nada, quase en passant, Henrique Cazes lança alguns dados que me causaram enorme surpresa e certamente vão provocar intermináveis debates entre os especialistas. Para citar apenas alguns exemplos: em Choro – do Quintal ao Municipal, aprendemos que, no início de sua história, e até as primeiras décadas deste século, o improviso era um elemento inexistente na totalidade das gravações de choro (o que torna muito provável a afirmação de que não se improvisava nas rodas de choro). Outra supresa – pelo menos para pessoas como eu, leitor não especialista: a percussão só se torna companheira dos chorões 50 anos depois da primeira roda! Para chegar a essas conclusões, Henrique Cazes fez o que pouquíssima gente fez: escutou todos os discos de choro gravados na fase mecânica da nossa nascente indústria fonográfica. Essa audição trouxe muitas outras surpresas. Alguns mitos não se sairam bem nesse simples teste. Cito, como exemplo, uma declaração bombástica e iconoclasta de Henrique Cazes sobre a atuação em disco de Patápio Silva: “tenho a impressão de que Patápio na verdade ficou tão famoso mais por seu espírito ‘furão’ e aventureiro, do que por suas qualidades de solista.” Porém, nem tudo fica no terreno da impressão e do juízo de valor. Afirmar que os primeiros discos de choro não continham, por décadas, nem pandeiros nem improvisos não é nem de longe uma atitude valorativa: é uma constatação. Uma constatação nunca antes feita, não com “todas as letras”. Uma constatação que modifica a história do choro como tem sido contada até agora. Esses e outros dados fazem com que o próprio subtítulo deste livro, Do Quintal ao Municipal, deva ser entendido entre aspas, mais como uma alusão a visão tradicional da história do choro, que pode começar a ser revista com a sua leitura. Do Quintal ao Municipal sim, mas também de volta aoQuintal novamente, e assim sem parar, num movimento de ida e vinda (não se sabe ao certo qual é o território de “origem”) que confunde muitas noções pré-estabelecidas, como a de alta e baixa
cultura, ou como erudito e popular. A percussão, vista geralmente como pertencente à “cozinha” ou
ao “quintal”, chega 50 anos depois (e o estilo mais “solto” e “balançado”, termos empregados por
Henrique Cazes, aparece ainda depois...) . Nesses 50 anos, a banda de Anacleto de Medeiros já
apresentara uma seleção de temas de “Il Guarany”, Villa-Lobos já freqüentara as rodas de choro da
casa do pai de Pixinguinha; e o pioneiro do violão chorista, Sátiro Bilhar (que nome!), tocara
também música clássica. Então quem veio primeiro: o Quintal ou o Municipal?
Puxo a brasa para a minha sardinha (e Henrique Cazes não tem nenhuma responsabilidade sobre
este meu “juízo de valor”), para o que penso ser o traço mais interessante de tudo aquilo de vital que
aconteceu e acontece na cultura carioca e brasileira: nem o Quintal nem o Municipal. O melhor
acontece “entre”, na possibilidade de ultrapassar as fronteiras rígidas que separam os vários mundos
culturais, na tradução entre as várias linguagens musicais, na genial atuação de mediadores (entremundos,
entre-linguagens) como Pixinguinha ou Radamés Gnatalli, nos lançamentos mais recentes
de um Nó em Pingo d’Água, de um Paulo Moura (com sua sintomática confusão urbana, suburbana
e rural), de um encontro entre a Orquestra Pixinguinha e o grupo japonês Compostela (sob arranjos,
não por acaso, de Henrique Cazes).
De alguma maneira, Henrique Cazes continua em seu livro o trabalho de releitura musical que vem
fazendo em seus discos. O choro tem demostrado ser, em toda sua história, um excelente laboratório
para esse tipo de experiência.
PS: Ao terminar a leitura deste livro, tudo o que eu mais queria era escutar alguns discos aqui
comentados como o primeiro do Trio Surdina (violão, violino e arcordeão!) ou qualquer um com
Garoto tocando guitarra havaina. Nem preciso dizer que quase todos estão fora de catálogo. Resta
esperar que alguma alma caridosa com poder de decisão dentro das gravadoras leia o livro e lance todos os discos. É querer demais? Não é preciso ser profeta para afirmar que este livro se tornará, imediatamente, uma obra de arte.
 
referência indispensável para estudiosos e amantes do choro e da música brasileira em geral.
Primeiro pelo seu caráter enciclopédico, ou melhor, de quase dicionário biográfico (e ainda melhor:
quase romanceado) dos grandes chorões do Brasil. Faz tempo que um trabalho como esse era
esperado e necessário. As obras existentes estão em sua maior parte esgotadas e não abordam a
evolução recente do choro no Brasil e no mundo.
Um leitor interessado na história desse gênero musical teria que freqüentar dezenas de bibliotecas e
sebos para, juntando pedaços de diversos livros para formar um panorama bastante incompleto
daquilo que aconteceu e tem acontecido em torno das rodas de choro. Henrique Cazes facilita nossa
vida. Mas seu trabalho não é apenas de um cuidadoso compilador. Muitas das histórias aqui
contadas e muitos dados biográficos aqui encontrados são revelados para o público pela primeira
vez.
As virtudes deste trabalho não terminam por aí. Um dos maiores méritos de Choro - do Quintal ao
Municipal é o de ter sido escrito por um músico extremamente envolvido com os novos rumos que
esse gênero musical tomou recentemente (e que há de tomar no futuro), além de ter tido o privilégio
de conviver, desde sua adolescência, como alguns dos maiores chorões deste século. Este livro deve
ser também degustado como um depoimento pessoal sobre toda essa história e todas essas vidas
musicais. Para Henrique Cazes não seria interessante fingir ser um observador imparcial do choro
(até porque – já estamos cansados de saber – não há, em nenhuma ocasião, observadores
imparciais). Grande parte da riqueza do seu relato vem de sua coragem de ter opiniões, algumas
delas bastante polêmicas, e de propor uma nova maneira de olhar para aquilo que já era conhecido,
o olhar de um chorão contemporâneo.
Portanto, não é também preciso ser um profundo conhecedor do choro para perceber que este livro
propõe uma espécie de reviravolta (diria revolucão, se tal termo não pertubasse o tom de modéstia
adequadamente zen com o qual Henrique Cazes trata os seus importantes achados) na narrativa
tradicional – e tradicionalizante - de sua história.
Quase como quem não quer nada, quase en passant, Henrique Cazes lança alguns dados que me
causaram enorme surpresa e certamente vão provocar intermináveis debates entre os especialistas.
Para citar apenas alguns exemplos: em Choro – do Quintal ao Municipal, aprendemos que, no início
de sua história, e até as primeiras décadas deste século, o improviso era um elemento inexistente na
totalidade das gravações de choro (o que torna muito provável a afirmação de que não se
improvisava nas rodas de choro). Outra supresa – pelo menos para pessoas como eu, leitor não
especialista: a percussão só se torna companheira dos chorões 50 anos depois da primeira roda!
Para chegar a essas conclusões, Henrique Cazes fez o que pouquíssima gente fez: escutou todos os
discos de choro gravados na fase mecânica da nossa nascente indústria fonográfica. Essa audição
trouxe muitas outras surpresas. Alguns mitos não se sairam bem nesse simples teste. Cito, como
exemplo, uma declaração bombástica e iconoclasta de Henrique Cazes sobre a atuação em disco de
Patápio Silva: “tenho a impressão de que Patápio na verdade ficou tão famoso mais por seu espírito
‘furão’ e aventureiro, do que por suas qualidades de solista.” Porém, nem tudo fica no terreno da
impressão e do juízo de valor. Afirmar que os primeiros discos de choro não continham, por
décadas, nem pandeiros nem improvisos não é nem de longe uma atitude valorativa: é uma
constatação. Uma constatação nunca antes feita, não com “todas as letras”. Uma constatação que
modifica a história do choro como tem sido contada até agora.
Esses e outros dados fazem com que o próprio subtítulo deste livro, Do Quintal ao Municipal, deva
ser entendido entre aspas, mais como uma alusão a visão tradicional da história do choro, que pode
começar a ser revista com a sua leitura. Do Quintal ao Municipal sim, mas também de volta ao
Quintal novamente, e assim sem parar, num movimento de ida e vinda (não se sabe ao certo qual é
o território de “origem”) que confunde muitas noções pré-estabelecidas, como a de alta e baixa
cultura, ou como erudito e popular. A percussão, vista geralmente como pertencente à “cozinha” ou
ao “quintal”, chega 50 anos depois (e o estilo mais “solto” e “balançado”, termos empregados por
Henrique Cazes, aparece ainda depois...) . Nesses 50 anos, a banda de Anacleto de Medeiros já
apresentara uma seleção de temas de “Il Guarany”, Villa-Lobos já freqüentara as rodas de choro da
casa do pai de Pixinguinha; e o pioneiro do violão chorista, Sátiro Bilhar (que nome!), tocara
também música clássica. Então quem veio primeiro: o Quintal ou o Municipal?
Puxo a brasa para a minha sardinha (e Henrique Cazes não tem nenhuma responsabilidade sobre
este meu “juízo de valor”), para o que penso ser o traço mais interessante de tudo aquilo de vital que
aconteceu e acontece na cultura carioca e brasileira: nem o Quintal nem o Municipal. O melhor
acontece “entre”, na possibilidade de ultrapassar as fronteiras rígidas que separam os vários mundos
culturais, na tradução entre as várias linguagens musicais, na genial atuação de mediadores (entremundos,
entre-linguagens) como Pixinguinha ou Radamés Gnatalli, nos lançamentos mais recentes
de um Nó em Pingo d’Água, de um Paulo Moura (com sua sintomática confusão urbana, suburbana
e rural), de um encontro entre a Orquestra Pixinguinha e o grupo japonês Compostela (sob arranjos,
não por acaso, de Henrique Cazes).
De alguma maneira, Henrique Cazes continua em seu livro o trabalho de releitura musical que vem
fazendo em seus discos. O choro tem demostrado ser, em toda sua história, um excelente laboratório
para esse tipo de experiência.
PS: Ao terminar a leitura deste livro, tudo o que eu mais queria era escutar alguns discos aqui
comentados como o primeiro do Trio Surdina (violão, violino e arcordeão!) ou qualquer um com
Garoto tocando guitarra havaina. Nem preciso dizer que quase todos estão fora de catálogo. Resta
esperar que alguma alma caridosa com poder de decisão dentro das gravadoras leia o livro e lance
todos os discos. É querer demais?