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Boa Tarde Bem-Vindo a Freenote, Login ou Crie sua conta
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Mundo Livre s/a 4.0 do punk ao manguebeat – 40 anos de lutas, conquistas e muito ativismo cultural, título da biografia que, finalmente a Mundo Livre s/a ganha, no ano em que completa 40 anos. Quem assina o livro é o jornalista e escritor fluminense Pedro de Luna (foto), num longo e minucioso texto de 552 páginas. ele conta a trajetória de uma das bandas mais importantes da história do rock brasileiro, desde a então bucólica praia de Candeias, em Jaboatão, nos anos 60, de casas e ruas sem asfalto. Praia de veraneio. Bairro cantado por Edu Lobo, Caetano Veloso, Gal Costa, MPB-4, e Rosa Passos, entre outras vozes requintadas. O carioca Edu Lobo, filho de pai e mãe recifenses, passava as férias na capital pernambucana, na casa dos parentes da mãe. E veraneavam em Candeias, na época quase desabitada. Candeias é uma das faixas de seu álbum de estreia solo, em 1966. Pedro de Luna inicia a narrativa por esta localidade, ainda pouco habitada, em 1975, quando se mudou pra lá a família Montenegro, pai, mãe e seis filhos. Três deles trilhariam o caminho da música: Fábio, Tony e Fred. Tivesse isso acontecido dez anos depois talvez a banda nem fosse formada:
Ilustre
Mundo Livre s/a 4.0 do punk ao manguebeat – 40 anos de lutas, conquistas e muito ativismo cultural, título da biografia que, finalmente a Mundo Livre s/a ganha, no ano em que completa 40 anos. Quem assina o livro é o jornalista e escritor fluminense Pedro de Luna (foto), num longo e minucioso texto de 552 páginas. ele conta a trajetória de uma das bandas mais importantes da história do rock brasileiro, desde a então bucólica praia de Candeias, em Jaboatão, nos anos 60, de casas e ruas sem asfalto. Praia de veraneio.
Bairro cantado por Edu Lobo, Caetano Veloso, Gal Costa, MPB-4, e Rosa Passos, entre outras vozes requintadas. O carioca Edu Lobo, filho de pai e mãe recifenses, passava as férias na capital pernambucana, na casa dos parentes da mãe. E veraneavam em Candeias, na época quase desabitada. Candeias é uma das faixas de seu álbum de estreia solo, em 1966.
Pedro de Luna inicia a narrativa por esta localidade, ainda pouco habitada, em 1975, quando se mudou pra lá a família Montenegro, pai, mãe e seis filhos. Três deles trilhariam o caminho da música: Fábio, Tony e Fred. Tivesse isso acontecido dez anos depois talvez a banda nem fosse formada:
“Naquela época não existia criminalidade em Candeias e os jovens passavam a noite na praia, cantando e tocando violão, sem medo da violência. Eles chamavam o lugar de Ilha Grande porque era um gueto, sem lugares bacanas para frequentar. Como eles não tinham carro nem dinheiro para frequentar a praia de Boa Viagem, embalavam a noitada sonora bebendo vinho barato, fumando maconha e cheirando loló”. No vizinho bairro jaboatonense de Piedade, já havia naquele ano muitos bares e boates, e especulação imobiliária, com casas demolidas para dar lugar a prédios residenciais, o que logo atingiria Candeias.
Foi lá que Fred Montenegro conheceu, entre outros, Havron Wolkoff (que tinha um musico importante como parente, BennyWolkoff, compositor de frevos, e músico da sinfônica), Marcelo Pereira (futuro editor do caderno de cultura do Jornal do Commercio, grande divulgador do manguebeat), Renato Lins, mais tarde uma das cabeças pensantes do movimento mangue, e que chegaria a Secretário da Cultura da prefeitura do Recife.
“O que pode um garoto pobre fazer, a não ser tocar numa banda de rock?” Os versos de Street Fighting Man, dos Rolling Stones foram seguido à risca, por Fred 04 (o 04, por ser um número onipresente em sua vida). Cuja primeira banda foi a Trapaça, depois Serviço Sujo e finalmente Mundo Livre s/a.
“Em março de 1984, Fred convocou os antigos companheiros das bandas Trapaça e Serviço Sujo e fundou a Mundo Livre s/a, cujo nome foi inspirado nos pronunciamentos do presidente Reagan. A formação original: Fred (guitarra e vocal), Fábio (baixo), Jean Paul (outro irmão, voz e percussão), Marlius (bateria) e Havron (guitarra baiana, voz e percussão). Xico Sá, colega de Fred no curso de jornalismo da UFPE, escreveu o primeiro release da MLSA.”
Pedro Luna narra as mudanças que se deram na banda que foi do punk à The Clash ao indie com carregado sotaque pernambucano, mais influências do ídolo de Fred 04, Jorge Benjor, e temas que iam do cotidiano à política, e esta última até os tempos atuais continua na música do grupo:
“É importante lembrar que em 1984 o mundo assistia ao auge da guerra fria entre EUA e U.R.S.S. Um seriado bastante popular na TV Brasileira era o agente 86, onde o ator Mel Brooks satirizava o tema com apologias irônicas em relação a defesa do tal mundo livre. Com frequência o então presidente norte-americano Ronald Reagan citava esse termo em seus discursos”.
E aí vai uma correção. O auge da guerra fria aconteceu na crise dos mísseis, que a Rússia pretendia instalar em Cuba. O então presidente John Kennedy foi, obviamente, contra. Fato que se deu em 1962, ano em que Fred 04 nasceu.
Ao contar a história de uma banda que atravessou quatro décadas, o autor invariavelmente conta um pouco da história cultural da cultura do Recife, com alguns deslizes naturais, para quem não é da cidade. O bar Drugstore Beco do Barato citado entre os “points” da década d 80, é da década de 70, palco da psicodelia pernambucana, mas não teve vida longa. Pecadilho perdoável.
MANGUE
É contada igualmente contada parte da história do manguebeat com o viés para a Mundo Livre s/a. Parte dos que arquitetaram o movimento conheceram-se na universidade. Um programa de rádio, o New Rock, na FM Transamérica levou Chico Science a conhecer Fred 04. Participavam do programa Renato Lins e Carlinhos Freitas, que logo abriria uma loja de discos a Discossauro, frequentada por músicos, jornalistas, pessoas que curtiam o novo rock que estava surgindo na época. Aquela troca de ideias geraria o caldo grosso de aratu que deu musculatura ao que a imprensa rotulou de manguebeat.
Pedro de Luna detalha os perrengues da banda até chegar ao disco. Um bom exemplo. No primeiro ensaio com a MLSA, Jader Macedo do Vale, o Bactéria, então com 16 anos, levou um teclado de sua casa, em Barra de Jangada, caminhando quatro quilômetros até onde a família Montenegro morava em Candeias. O autor vai encaixando as peças do quebra-cabeças do que seria o manguebeat, com as circunstâncias conspirado a favor daquela rapaziada. Que estava no lugar certo, no momento exato.
O Brock, ao cabo de uma década, dava sinais de esgotamento. A axé music vendia bem, disseminava micaretas país afora, mas não atraia os consumidores de rock. Ao deparar-se com a enxurrada de matérias na imprensa do Recife sobre as bandas do mangue, que lhes eram enviadas pelos escritórios que mantinham na capital pernambucana, os executivos das gravadoras focaram no Recife. O marco inicial do manguebeat deveria ser 1993, quando as bandas definiram suas formações, e o Abril pro Rock reuniu com a CSNZ e a MLSA grupos que de comum com a estética de mangue não tinham apenas porém o intuito de balançar o coro os contentes.
Pedro de Luna conta bem esta fase da música pernambucana, entrevistando a maioria dos envolvidos direta ou indiretamente com aqueles acontecimentos, com aquiescência de Fred 04 para contar histórias de bastidores, como a saída da banda de Fábio “Goró” Montenegro. Chef Tony, o baterista, esclareceu o motivo porque foi necessário sacar o irmão do grupo: “A gente teve que tirá-lo da banda por causa do comportamento, principalmente quando bebia muito e ficava doidão. Teve um show importante, num teatro, em que ele resolveu toar sem camisa. Também teve treta com Bactéria. Ai, uma hora não deu mais, senão ia prejudicar a banda, ninguém iria querer nos contratar. E foi difícil porque eu morava com ele e meus pais na mesma casa. Quando ele tomava uma, dizia que ia me matar”.
O autor imerge na gravação dos primeiros discos do grupo, sobretudo no Samba Esquema Noise, em 1994. O autor também peca pelas minúcias; Tanto é assim que na página 306 a narrativa ainda está em Por Pouco, quarto CD da MLSA. Poderia encurtar o texto, sem prejudicar a história. excluindo parte das turnês nacionais da banda, que tem mais público fora de sua terra. Independente disto, a Mundo Livre s/a merecia uma biografia deste porte, pela qualidade da música, pela importância na música brasileira, e pela coerência ideológica e de princípios de Fred 04, que nunca fez concessões à gravadora ou ao mercado.