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Convém não misturar demais vida com biografia. Aquela compreende uma seqüência de eventos em ordem cronológica, muitas vezes com direito a fatos sem sentido, sensações, pesadelos e sonhos irrecuperáveis por quem não a experimentou na sua integridade. Biografia consiste em narrativa, uma ordenação de ocasiões marcantes, trata-se em suma de um gênero literário. Há um abismo entre existir e ser biografado. A cantora luso-brasileira Carmen Miranda (1909-1955) já mereceu pequenas e grandes narrativas biográficas. Nenhuma tem o fôlego da que o jornalista e ficcionista Ruy Castro acaba de trazer à luz. Carmen (Companhia das Letras) contém mais de 600 páginas de detalhes, dos mais sublimes aos mais sórdidos, da trajetória daquela que foi a maior embaixadora da música brasileira nos Estados Unidos.